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Dor no Quadril

Dor no quadril é uma importante queixa no consultório ortopédico, principalmente em pacientes acima dos 60 anos de idade, podendo corresponder a 14% das consultas ortopédicas nessa faixa etária.

Entretanto, a dor no quadril acomete pacientes de todas as idades, desde crianças, passando por adolescentes, adultos jovens e pessoas de meia idade até chegar nos idosos.

Neste texto abordaremos as principais causas de dor no quadril na população adulta, que são tratadas pelo Especialista em Quadril. Patologias do quadril que acometem crianças e adolescentes, são tratadas pelo Ortopedista Infantil.

Impacto femoro-acetabular

O impacto femoro-acetabular é uma patologia que acomete principalmente pacientes jovens e praticantes de atividades esportivas.

Ela é decorrente da presença de saliências ósseas na cabeça do fêmur ou na borda do acetábulo (região da bacia onde a cabeça do fêmur está encaixada), fazendo com que ao se realizar flexão do quadril (movimento de puxar a perna para cima), principalmente combinada com adução e rotação interna do quadril, ocorra um impacto, ou seja, um contato anormal entre a cabeça do fêmur e o acetábulo, gerando dor no paciente, sentida principalmente na região profunda da virilha, além de em alguns casos, restringir a mobilidade do quadril.

Imagem ilustrando os possíveis locais onde as saliências ósseas podem ocorrer | Dr. Felipe Bessa
Imagem ilustrando os possíveis locais onde as saliências ósseas podem ocorrer, levando ao impacto femoro-acetabular. Na primeira imagem, vemos a saliência no acetábulo, gerando o impacto do tipo Pincer. Na segunda imagem vemos a saliência entre a cabeça e o colo do fêmur, gerando o impacto do tipo CAME.

Esses sintomas são percebidos principalmente durante atividades físicas, mas também ao entrar ou sair do carro, subir ou descer escadas ou durante relação sexual.

Dependo do grau de dor apresentada pelo paciente, ele pode ficar impedido de praticar atividades físicas e até mesmo restrito para atividades cotidianas.

Seu diagnóstico é feito com informações precisas colhidas durante a consulta, um exame físico detalhado, incluindo testes específicos desenvolvidos para detectar essa patologia, além da realização de exames de imagem, principalmente RX e Ressonância Magnética do quadril.

Ao se fechar o diagnóstico, o tratamento se inicia com repouso das atividades desencadeadoras da dor, medicações anti-inflamatórias e Fisioterapia, para analgesia e condicionamento muscular, por 2 a 3 meses.

Aproximadamente metade dos pacientes melhoram com esse tratamento, enquanto a outra metade pode manter os sintomas e limitações, necessitando de cirurgia para seu tratamento.

A cirurgia é realizada com a artroscopia de quadril, uma técnica minimamente invasiva, feita com pequenos cortes na pele, com auxílio de câmera e instrumentos específicos (assim como as laparoscopias abdominais).

Ilustração sobre como é feita a artroscopia de quadril | Dr. Felipe Bessa
Imagem ilustrando como é feita a artroscopia de quadril, realizada através de pequenos cortes na pele, com o auxílio de câmera e instrumentos pouco invasivos.

Nessa cirurgia é feita uma raspagem das saliências ósseas, além do tratamento de outras possíveis lesões concomitantes, como a do lábio acetabular, descrita logo abaixo.

Lesão do lábio acetabular

A lesão do lábio acetabular, também chamada de lesão labral, é uma patologia que também costuma acometer pacientes jovens, geralmente praticantes de esportes, e assim como o impacto femoro-acetabular, cursa com dor principalmente na região da virilha, ao se fazer movimentos amplos de flexão do quadril.

O lábio acetabular é uma estrutura de fibrocartilagem que recobre a borda do acetábulo, e exerce funções importantes no quadril, como aprofundar, selar e estabilizar a articulação.

Quando está lesado ou destacado do osso, além da dor, pode causar sensação de falseio e estalos no quadril, muitas vezes restringindo ou impedindo a prática esportiva pelo paciente.

Lábio acetabular com lesão e destacamento do osso | Dr. Felipe Bessa
Imagem ilustrando o lábio acetabular normal na figura da direita e o lábio acetabular com lesão e destacamento do osso, gerando dor e inflamação no quadril.

Possíveis causas para uma lesão no lábio acetabular são a presença do impacto femoro-acetabular, trauma no quadril ou condições degenerativas na articulação.

Seu diagnóstico depende de um exame físico adequado e da realização de Ressonância Magnética, que confirma a presença da lesão nessa estrutura.

Da mesma forma que o impacto femoro-acetabular, a lesão labral é tratada inicialmente com medidas conservadoras, como mudanças nas atividades físicas e Fisioterapia.

Os casos refratários se beneficiam com a cirurgia de artroscopia de quadril, para fixação da lesão labral com âncoras, que são pequenos parafusos absorvíveis com fios em sua ponta, usados para suturar a lesão.

Síndrome do piriforme

A síndrome do piriforme também é tratada pelo especialista em quadril, mas ao contrário das patologias acima citadas, ela cursa com dor na região posterior do quadril, ou seja, na nádega.

O piriforme é um importante músculo dessa região, que faz parte dos rotadores externos do quadril. Logo abaixo dele passa o nervo ciático, o principal nervo dos membros inferiores.

Em alguns casos, o piriforme pode apresentar um encurtamento, uma contratura ou mesmo uma variação anatômica, causando um pinçamento do nervo ciático, gerando dor na região glútea do paciente, que pode ficar ali localizada ou irradiar para a face interna ou posterior da coxa.

A dor é sentida principalmente após longos períodos sentado ou em pé, mas pode surgir em diversas situação cotidianas, ou até mesmo ser contínua.

Seu diagnóstico é complexo e depende de uma consulta criteriosa, tanto na parte da entrevista com o paciente (chamada de anamnese), quanto no exame físico. Além disso, exames de imagem são fundamentais, e os principais são RX, Ressonância Magnética e a eletroneuromiografia, um exame que avalia a condução nervosa no membro acometido.

Seu tratamento é realizado inicialmente com Fisioterapia, principalmente para alongamento muscular e exercícios de estabilização pélvica, além de soltura mio-fascial e analgesia local. Os sintomas costumam ter longa duração, e é importante o paciente estar ciente dessa informação, para evitar ansiedade e decepção ao longo do tratamento.

Em casos refratários, infiltração com analgésicos ou com toxina botulínica pode ser realizada no músculo piriforme, para promover analgesia e relaxamento muscular. Apenas em últimos casos, cirurgias são indicadas para tratar a síndrome do piriforme.

Osteonecrose da cabeça do fêmur

Essa doença ocorre por conta de um defeito na circulação sanguínea na cabeça do fêmur, responsável por levar oxigênio e nutrientes para o osso da cabeça femoral. Isso faz com que as células ósseas dessa região acabem morrendo, evento chamado de necrose, por isso o termo osteonecrose (morte do osso).

Inicialmente o paciente apresenta dor no quadril, relacionada a morte óssea e ao processo inflamatório naquela região. Como o osso acometido é responsável pela sustentação e preservação da esfericidade da cabeça do fêmur, ao longo do tempo pode haver o colapso da cabeça femoral, ou seja, a perda de sua esfericidade natural, gerando uma incongruência entre a cabeça femoral e a bacia (mais precisamente o acetábulo).

Essa incongruência leva ao desgaste progressivo da cartilagem do quadril, processo chamado de artrose, que leva a uma piora da dor e perda da mobilidade do quadril.

A osteonecrose da cabeça do fêmur é dividida em idiopática, quando não há uma causa específica para sua ocorrência; traumática, quando ocorre após um trauma importante no quadril, como uma fratura ou luxação; ou em secundária, quando é decorrente de alguma condição patológica no organismo, sendo as principais delas:

  • Uso de corticóides: medicações utilizadas para tratar principalmente asma e doenças reumatológicas
  • Etilismo
  • Doenças hematológicas: a mais comum delas, a anemia falciforme
  • Doenças infecciosas, principalmente infecção pelo HIV
  • Tratamento com quimioterapia
  • Radioterapia próxima ao quadril
  • Doenças que favorecem a hipercoagulação sanguínea: doenças que geralmente levam à ocorrência de trombose e embolia pulmonar
Imagem ilustrando a osteonecrose da cabeça do fêmur | Dr. Felipe Bessa
À esquerda vemos uma imagem ilustrando a osteonecrose da cabeça do fêmur, levando à perda da sustentação óssea nessa região. À direita vemos uma imagem de Ressonância Magnética evidenciando uma lesão serpentiforme ou serpiginosa na cabeça do fêmur, diagnosticando a osteonecrose.

Seu diagnóstico é feito com a realização de exames de imagem, principalmente o RX e a Ressonância Magnética.

Quando diagnosticada em fases iniciais, ou seja, enquanto a cabeça do fêmur se mantém esférica, o tratamento é realizado com a descompressão da cabeça do fêmur. Nessa cirurgia, retira-se com uma broca o osso necrótico, e associa-se a colocação de enxertos ósseos, sintéticos ou obtidos do próprio paciente, para estimular a formação de osso sadio na região, com o intuito de promover uma sustentação adequada à cabeça femoral, evitando assim o colapso da mesma.

Passos da cirurgia de descompressão da cabeça do fêmur | Dr. Felipe Bessa
Imagem ilustrando os passos da cirurgia de descompressão da cabeça do fêmur. Com uma broca expansível, retira-se o osso necrótico e em seguida, o espaço gerado é preenchido por enxertos ósseos, preferencialmente retirados do próprio paciente (geralmente da bacia), para estimular formação de osso novo e sadio.

Já nos casos em que houve o colapso da cabeça do fêmur ou nos quais já há artrose instalada, o tratamento é feito com a prótese de quadril, citada em mais detalhes adiante, no tópico de artrose de quadril.

Tendinites e bursites do quadril

O quadril é uma articulação que tem diversos tendões ao seu redor, que em algumas situações podem apresentar uma inflamação, gerando dor no quadril.

Os principais tendões do quadril são os do glúteo médio e mínimo, que ficam na região lateral do quadril. Eles são os principais abdutores do quadril (movimento de abertura da perna), e quando inflamados, geram dor na lateral do quadril, principalmente ao andar longas distâncias, subir e descer escadas e ao deitar-se de lado sobre o quadril afetado.

Essa patologia acomete principalmente mulheres entre 40 e 60 anos de idade. Ela está muito associada com a bursite trocantérica, inflamação da bursa trocantérica, uma pequena bolsa de líquido que fica logo acima dos tendões glúteos, cuja função é proteger a região de traumas locais e lubrificar a região.

Dor no Quadril | Dr. Felipe Bessa
A primeira imagem ilustra a tendinite de glúteo médio em associação com a bursite trocantérica. A segunda imagem é uma ressonância magnética de bursite trocantérica acentuada e a terceira imagem, uma tendinite de glúteo médio.

Outras tendinites comuns no quadril são as do iliopsoas, o principal flexor do quadril (movimento de puxar a perna para cima) que fica na parte da frente do quadril, e dos isquiotibiais, que se originam na região da nádega (mais precisamente no ísquio, osso sobre o qual sentamos), e são os principais flexores do joelho.

O tratamento das tendinites é iniciado com medicações analgésicas e anti-inflamatórias, compressas locais, mudanças de atividades físicas e Fisioterapia.

Nos casos persistentes, podem ser realizadas infiltrações nos tendões inflamados com analgésicos ou com PRP, o plasma rico em plaquetas, que é preparado com o próprio sangue do paciente e que apresenta propriedades anti-inflamatórias e regenerativas nos tendões.

Procedimento de infiltração nos tendões e bursa inflamados | Dr. Felipe Bessa
Imagem ilustrando o procedimento de infiltração nos tendões e bursa inflamados e uma centrífuga utilizada para preparação do PRP

Apenas em casos avançados, ou seja, nos quais onde há importante degeneração e ruptura tendínea, está indicada a cirurgia, para reparo dos tendões rompidos.

Artrose do quadril

A artrose do quadril é um processo de degeneração da cartilagem que recobre tanto a cabeça do fêmur, quanto o acetábulo, além de uma inflamação dessa articulação.

Quadril com artrose | Dr. Felipe Bessa
Um quadril normal na primeira imagem e um quadril com artrose na segunda imagem, evidenciada pelo desgaste da cartilagem articular e inflamação da articulação.

Seus principais sintomas são dor no quadril, sentida principalmente na região da virilha, perda de mobilidade, dificuldade para caminhar e encurtamento da perna afetada.

Seu diagnóstico é feito com o RX, sendo a Ressonância Magnética raramente necessária.

Diversas são as opções de tratamento da artrose do quadril, que vão depender tanto do estágio da doença, quanto dos sintomas dos pacientes.

Em casos iniciais, em que geralmente o paciente apresenta poucos sintomas, Fisioterapia, mudanças nas atividades físicas (principalmente evitando as muito intensas e com impacto) e medicações analgésicas são suficientes para alívio dos sintomas. As medicações chamadas de condroprotetoras, tais como glicosamina e colágenos, têm poucas evidências de benefícios, mas podem ajudar em alguns casos.

Já nos casos moderados, podem ser realizadas infiltrações na articulação do quadril com o ácido hialurônico, um gel que tem substâncias similares às encontradas nas articulações sadias, promovendo analgesia e lubrificação na articulação.

Outra forma de infiltração em quadris com artrose moderada é com os ortobiológicos, substâncias obtidas do próprio paciente, que tem propriedades analgésicas, reparadoras e lubrificantes.

As mais comuns são o PRP, já citado, obtido do sangue do paciente, ou o concentrado de células mesenquimais obtido da gordura abdominal, preparado com um dispositivo específico.

Já em casos avançados, ou seja, quando houve um desgaste completo da cartilagem articular ou em casos de dor refratária aos outros tratamento disponíveis, está indicada a prótese de quadril.

Essa cirurgia é feita com a colocação de um implante metálico, tanto no fêmur quanto no acetábulo, que substitui a articulação doente, permitindo que o paciente volte a mobilizar o quadril, caminhar e até mesmo a praticar atividades físicas moderadas sem dor ou limitações.

Prótese de quadril | Dr. Felipe Bessa
Imagem ilustrando a prótese de quadril e RX de paciente submetido a prótese de quadril para tratamento de artrose avançada.

A principal característica dessa cirurgia é devolver qualidade de vida ao paciente, e por isso foi eleita como a cirurgia do século na revista The Lancet.

O tratamento ideal deve ser individualizado e definido após uma avaliação médica criteriosa.
Consulte um especialista em quadril.

Referências
Sociedade Brasileira de Quadril (https://www.sbquadril.org.br/paciente/textos-medicos-sobre-quadril/)
Mayo Clinic (https://www.mayoclinic.org/symptoms/hip-pain/basics/causes/sym-20050684)
OrthoInfo (https://orthoinfo.aaos.org/en/diseases–conditions/osteoarthritis-of-the-hip/)

FAQ

1. O que pode causar dor no quadril?

A dor no quadril pode ter diversas causas. Além das contusões e lesões esportivas, algumas patologias específicas afetam essa articulação, gerando dor no quadril; as principais são o impacto femoro-acetabular, lesão do lábio acetabular, síndrome do piriforme, osteonecrose da cabeça do fêmur, tendinites, bursites e artrose do quadril.

2. O que fazer para aliviar dor no quadril?

A tratamento da dor no quadril depende da sua causa específica, e portanto, um diagnóstico acurado é essencial para que o paciente seja tratado da maneira mais adequada. Entretanto, repouso, compressas locais, Fisioterapia e uso de anti-inflamatórios costumam ser o tratamento inicial para boa parte dos casos. Casos específicos podem necessitar de infiltrações, como bursites e tendinites ou até mesmo de cirurgias, como a osteonecrose da cabeça do fêmur e a artrose do quadril avançada.

3. Onde dói o quadril?

As patologias que afetam o quadril podem se manifestar com dor em diferentes pontos do nosso corpo. Dessa forma, a localização da dor pode nos dar indícios de qual é o problema afetando o quadril. A tendinite glútea e bursite trocantérica costumam causar dor na parte lateral do quadril, sobre o osso mais saliente dessa região (o trocanter maior do fêmur). Já a artrose e o impacto femoro-acetabular costumam causar dor na região profunda da virilha. E a síndrome do piriforme costuma causar dor na região da nádega. Entretanto, uma avaliação especializada e complementada com exames de imagem é essencial para o diagnóstico correto e tratamento adequado das patologias do quadril.

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