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Lesão proximal do tendão do reto femoral: Sintomas, diagnóstico e tratamento

A lesão do tendão do reto femoral em sua origem no quadril é uma das principais causas de dor aguda na região dessa articulação e da virilha em atletas. Embora seja menos frequente que as lesões dos isquiotibiais ou dos adutores, pode provocar afastamentos prolongados do esporte quando não é diagnosticada e tratada corretamente.

Essa lesão ocorre principalmente em esportes que exigem movimentos explosivos, como futebol, atletismo, futsal, rugby, tênis e artes marciais.

Neste artigo, abordaremos as principais causas, sintomas, formas de diagnóstico e opções de tratamento da lesão proximal do reto femoral.

O que é o tendão proximal do reto femoral?

O reto femoral é um dos quatro músculos do quadríceps, localizado na região anterior da coxa. Diferentemente dos outros músculos do quadríceps, ele cruza duas articulações: o quadril e o joelho.

Por isso, exerce duas funções importantes:

  • Flexionar o quadril (puxar para cima)
  • Estender o joelho.

Sua anatomia também apresenta uma particularidade importante: o músculo possui duas origens tendíneas, chamadas de cabeças.

A cabeça direta origina-se na espinha ilíaca ântero-inferior (EIAI), enquanto a cabeça reflexa (ou indireta) se insere na região superior do acetábulo e da cápsula anterior do quadril. Essas duas estruturas se unem para formar o tendão conjunto do reto femoral.

Imagem de dissecção anatômica do reto femoral que realizei durante meu estágio na Rush – Chicago. IH é a cabeça reflexa e DH é a cabeça direta do reto femoral.
Imagem de dissecção anatômica do reto femoral que realizei durante meu estágio na Rush – Chicago. IH é a cabeça reflexa e DH é a cabeça direta do reto femoral.

Essa anatomia explica por que diferentes padrões de lesão podem ocorrer, desde pequenas distensões até rupturas completas com retração do tendão.

Como ocorre a lesão?

O mecanismo clássico é uma contração muito intensa do músculo enquanto ele está esticado.

Isso acontece, por exemplo:

  • Durante um chute forte no futebol
  • Em uma arrancada máxima de corrida
  • Em um salto explosivo
  • Em movimentos bruscos de desaceleração

Nessas situações, o quadril encontra-se em extensão enquanto o joelho está flexionado, colocando grande tensão sobre o tendão proximal do reto femoral.

Atletas que já apresentam uma tendinite (inflamação) do reto femoral, sobrecarga nesse tendão, fadiga muscular ou histórico prévio de lesão, possuem maior risco de romper o reto femoral.

Quais são os sintomas?

Na maioria dos casos, o atleta refere um estalo seguido de dor intensa na parte anterior do quadril ou da virilha, sendo incapaz de continuar praticando o esporte.

Nas primeiras horas ou dias podem surgir:

  • Dor localizada na frente do quadril
  • Dificuldade para caminhar
  • Dor ao levantar a perna
  • Fraqueza para chutar
  • Hematoma na parte superior da coxa
  • Dificuldade para correr ou subir escadas

Como fazemos o diagnóstico de lesão do reto femoral?

Na consulta médica, conseguimos entender os relatos do paciente, e seguimos com o exame físico, no qual podemos encontrar:

  • Dor à palpação da origem do tendão (na parte da frente do quadril)
  • Dor à flexão resistida do quadril
  • Dor ao alongar o quadríceps
  • Fraqueza muscular para levantar o quadril e esticar o joelho
  • Em alguns casos, uma falha palpável e até visível (como uma depressão na coxa) correspondente ao tendão rompido.

Geralmente, para confirmar a lesão e definir sua gravidade, são necessários exames de imagem.

O ultrassom pode identificar algumas rupturas, principalmente quando realizado por profissionais experientes, mas apresenta limitações para avaliar toda a anatomia da origem tendínea.

O exame de escolha é a Ressonância Magnética, que permite identificar:

  • Qual tendão foi lesionado (direto, reflexo ou ambos)
  • Se a ruptura é parcial ou completa
  • O grau de retração do tendão, se presente
  • A presença de edema muscular
  • A formação de hematoma
  • Possíveis lesões associadas

Essa caracterização é fundamental para definir o tratamento mais adequado e estimar o tempo de retorno ao esporte.

A primeira imagem de Ressonância Magnética mostra a ruptura do tendão do reto femoral (estrutura com borda azul), que avulsionou da espinha ilíaca antero-inferior (estrutura com borda vermelha, e os espaço que ficou entre eles, apontado pela seta. A segunda imagem mostra a inflamação ao redor do tendão (branco ao redor da estrutura preta).
A primeira imagem de Ressonância Magnética mostra a ruptura do tendão do reto femoral (estrutura com borda azul), que avulsionou da espinha ilíaca antero-inferior (estrutura com borda vermelha, e os espaço que ficou entre eles, apontado pela seta. A segunda imagem mostra a inflamação ao redor do tendão (branco ao redor da estrutura preta).

Classificação da lesão

As classificações mais recentes levam em consideração não apenas a extensão da ruptura, mas também qual componente anatômico foi acometido.

De maneira simplificada, podemos dividir as lesões em:

  • Distensão (estiramento) muscular
  • Lesão da junção miotendínea (região na qual tendão se junta com a fibra muscular)
  • Ruptura parcial do tendão
  • Ruptura completa de um dos tendões
  • Avulsão completa do tendão conjunto.

Essa diferenciação é importante porque influencia diretamente o tratamento e o tempo de recuperação.

Imagem ilustrando os diferentes tipos de lesão do reto femoral.
Imagem ilustrando os diferentes tipos de lesão do reto femoral.

Como é o tratamento?

Felizmente, a maioria das lesões proximais do reto femoral pode ser tratada sem cirurgia.

Na fase inicial recomenda-se principalmente:

  • Repouso de atividades físicas e de atividades que desencadeiam dor
  • Controle da dor com analgésicos e compressas de gelo
  • Após redução da dor, inicia-se um programa progressivo de Fisioterapia.

A reabilitação tem como objetivos:

  • Promover a cicatrização do tendão
  • Recuperar a amplitude de movimento e evitar rigidez e encurtamento
  • Restaurar força muscular
  • Corrigir desequilíbrios musculares
  • Preparar o atleta para retornar ao esporte com segurança

Inicialmente o paciente realiza exercícios isométricos, evoluindo gradualmente para fortalecimento resistido, treino excêntrico, exercícios funcionais e movimentos esportivos específicos.

Geralmente, o retorno ao esporte é autorizado somente quando o paciente apresenta recuperação da força, ausência de dor e desempenho adequado nos testes funcionais.

Terapias biológicas e tratamentos complementares

Para otimizar o resultado do tratamento acima, podemos associar algumas terapias, que podem acelerar o processo de recuperação e melhorar a qualidade do tendão após a cicatrização.

Entre eles destacam-se:

  • Terapia por Ondas de Choque
  • Plasma Rico em Plaquetas (PRP)
  • Aspirado de Medula Óssea (BMA)
  • Aspirado de Medula Óssea Centrifugado (BMAC).

Essas terapias têm como objetivo estimular o processo de cicatrização do tendão, por meio da liberação de substâncias chamadas de fatores de crescimento e citocinas, que induzem um processo inflamatório reparativo no tecido lesionado.

Quando indicamos a cirurgia?

Realizamos a cirurgia apenas em casos de avulsões completas da origem tendínea, com retração importante (geralmente mais de 3 centímetros), associada a perda de força, em atletas profissionais ou de alto rendimento, ou em casos de pacientes que persistem com perda de força e limitações nas atividades físicas após o tratamento conservador.

A cirurgia consiste na reinserção do tendão ao osso utilizando âncoras específicas, seguida por um protocolo progressivo de reabilitação.

Quando bem indicada, a cirurgia apresenta excelentes resultados para retorno às atividades esportivas.

Qual o tempo de recuperação após a ruptura do reto femoral?

O tempo de recuperação depende principalmente do tipo da lesão, e é uma média, nem sempre sendo igual para todos os pacientes:

  • Distensões leves: 3 a 6 semanas;
  • Lesões miotendíneas: 6 a 10 semanas;
  • Rupturas parciais: 8 a 12 semanas;
  • Avulsões completas: 3 a 6 meses, especialmente quando necessitam de cirurgia.

O retorno precoce antes da cicatrização adequada aumenta significativamente o risco de nova lesão ou de cicatrização inadequada, podendo deixar dor e disfunção residuais no paciente.

O Dr. Felipe Spinelli Bessa é médico ortopedista, especialista em Cirurgia do Quadril, com as melhores especializações na área. É membro da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e da Sociedade Brasileira de Quadril (SBQ). Além disso, integra o Núcleo de Ortopedia Especializada, que reúne especialistas renomados em todas as áreas da ortopedia moderna.

 

Entre em contato com o Dr. Felipe Spinelli Bessa

 

Referências
OrthoInfo – American Academy of Orthopaedic Surgeons.

PubMed

 

FAQ

Quais são os sintomas da lesão do reto femoral?

Os sintomas mais comuns são dor súbita na frente do quadril ou da virilha, estalo durante o movimento, dificuldade para caminhar, perda de força para levantar a perna ou chutar e, em alguns casos, hematoma na parte da frente da coxa.

Toda lesão do reto femoral precisa de cirurgia?

Não. A grande maioria das lesões é tratada com sucesso com repouso, Fisioterapia e retorno gradual aos esportes. Reservamos a cirurgia para rupturas completas com retração importante, principalmente em atletas de alto rendimento.

Quanto tempo demora para voltar ao esporte?

O retorno depende da gravidade da lesão. Casos leves costumam retornar em cerca de um mês, enquanto rupturas extensas podem exigir de três a seis meses de repouso + recuperação.

 

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