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Lesões do quadril no esporte: do diagnóstico ao tratamento

O quadril é umas das articulações mais susceptíveis a apresentar lesões durante a prática esportiva, pelo fato de absorver grande parte do impacto e apresentar uma das maiores mobilidades no nosso corpo.

Dessa forma, diferentes lesões esportivas podem afetar o quadril. Neste texto abordaremos as mais frequentes, e explicaremos como elas são diagnosticadas e tratadas.

Pubalgia

O termo pubalgia refere-se a dor na região do púbis, que pode ser causada por problemas distintos. Dessa forma, não é uma entidade única, e necessita de uma avaliação aprofundada para seu adequado tratamento.

Os atletas, sejam profissionais ou amadores, mais afetados pela pubalgia são os praticantes de futebol e futevôlei, devido aos movimentos rotacionais envolvidos nessa prática esportiva.

As causas mais frequentes de dor na região do púbis são:

  • Tendinopatias (tendinites) dos adutores, principalmente o adutor longo
  • Osteíte púbica, uma inflamação nos ossos do púbis. Isso pode ocorrer devido a problemas de dentro da articulação do quadril, como o impacto femoro-acetabular ou por sobrecarga mecânica na região, pelo excesso de treinos ou desequilíbrios musculares
  • Fraquezas da parede abdominal: essa condição vai desde fraquezas que não são visualizadas em exames simples, como a hérnia do atleta, até hérnias inguinais francas

Os sintomas geralmente se iniciam leves e vão aumentando ao longo do tempo, até chegar a um ponto em que impedem a prática esportiva.

A investigação da pubalgia se inicia com um exame físico adequado, realizado na consulta com o ortopedista, no qual diversos teste clínicos são realizados.

A seguir, complementamos a investigação com exames de imagem, como o RX, Ressonância Magnética e ultrassom das regiões inguinais, para avaliação de possível hérnia inguinal.

RX evidenciando alterações na sínfise púbica e RNM mostrando importante edema ósseo, típico da osteíte púbica.
RX evidenciando alterações na sínfise púbica e RNM mostrando importante edema ósseo, típico da osteíte púbica.

Uma vez feito o diagnóstico, o tratamento deve ser iniciado. Na grande maioria das vezes, o atleta deve ficar afastado temporariamente de seus treinos, para permitir a adequada recuperação.

Além disso, medicações analgésicas e anti-inflamatórias são essenciais nas fases iniciais, devido ao grau de dor do paciente.

Caso hérnia inguinal seja diagnosticada, encaminhamos o paciente deve ao cirurgião geral ou gastro cirurgião para avaliação da condição e possível cirurgia.

No caso das outras lesões, mais relacionadas ao aparelho musculo esquelético, o tratamento inicial é com Fisioterapia, para analgesia, liberação miofascial e reequilíbrio muscular da região.

Caso esse tratamento não seja eficaz, utilizamos outras modalidades, tais como a Terapia por Ondas de Choque, tratamento no qual um aparelho com um gerador de cristais piezoelétricos emite ondas acústicas, que penetram os tecidos e promovem analgesia, desinflamação e reparação de tecidos lesados.

Outra possibilidade é a realização de infiltrações nos casos das tendinopatias. Podemos infiltrar medicações anti-inflamatórias e reparadoras, como os biológicos. Essas infiltrações podem ser feitas no consultório médico, guiadas por ultrassom e com anestesia local, com baixo desconforto ao paciente.

Raramente realizamos cirurgias para o tratamento da pubalgia. Apenas casos muito limitantes e refratários ao tratamento acima necessitam de cirurgia.

Impacto femoroacetabular e lesão de lábio acetabular

O impacto femoroacetabular é causado pela presença de saliências ósseas anômalas entre o colo e cabeça do fêmur e/ou na borda do acetábulo. A causa dessas saliências não é muito bem compreendida, mas pode ser ocasionada pela prática de atividades físicas precoces.

Essas saliências ósseas fazem com que haja um contato anormal entre o fêmur e o acetábulo (cavidade da bacia onde a cabeça femoral articula). Como na borda do acetábulo existe uma estrutura importante do quadril chamada de lábio acetabular, esse impacto pode ao longo do tempo machucar o lábio, o que piora a dor do paciente.

RX evidenciando alterações na sínfise púbica e RNM mostrando importante edema ósseo, típico da osteíte púbica.
RX evidenciando alterações na sínfise púbica e RNM mostrando importante edema ósseo, típico da osteíte púbica.
Imagens ilustrando o impacto femoro-acetabular e a lesão do lábio acetabular, frequentes em atletas.
Imagens ilustrando o impacto femoro-acetabular e a lesão do lábio acetabular, frequentes em atletas.

O sintoma que os atletas portadores do impacto e da lesão labral apresentam é dor na região da virilha, principalmente ao fazer movimentos rotacionais ou com muita flexão do quadril, ou quando realizam atividades com salto e/ou impacto.

Dessa forma, os mais afetados são os praticantes de futebol, tênis, cross-fit, corrida, artes marciais e balé.

Assim como a pubalgia, a dor tem início lento, mas vai piorando até começar a limitar o atleta de realizar suas atividades.

Além da dor, o paciente pode perceber uma restrição na mobilidade do quadril e alguns pacientes têm a sensação de o quadril “desencaixar”, mas isso não ocorre de verdade.

No caso de suspeita dessas lesões, realizamos alguns testes específicos com o paciente para ver se ele apresenta dor de impacto e complementamos e investigação com exames de RX e Ressonância Magnética.

Imagem de RX identificando saliência óssea entre a cabeça e colo do fêmur, típico do impacto femoro-acetabular tipo CAME e imagem de Ressonância apontando lesão labral.
Imagem de RX identificando saliência óssea entre a cabeça e colo do fêmur, típico do impacto femoro-acetabular tipo CAME e imagem de Ressonância apontando lesão labral.

Quando confirmado o diagnóstico, o tratamento se inicia com Fisioterapia e redução dos treinos e prática esportiva. Após 2 a 3 meses, caso o paciente ainda apresente dor ou restrições, podemos indicar a cirurgia de artroscopia do quadril.

Nessa cirurgia, entramos com uma câmera e instrumentos minimamente invasivos na articulação, para correção da anatomia do quadril e sutura da lesão do lábio acetabular.

Imagem de radioscopia durante a artroscopia do quadril, mostrando a câmera e instrumento utilizado para correção da saliência óssea, e ilustração da sutura do lábio acetabular.
Imagem de radioscopia durante a artroscopia do quadril, mostrando a câmera e instrumento utilizado para correção da saliência óssea, e ilustração da sutura do lábio acetabular.

O pós-operatório pode durar alguns meses, período no qual o paciente deve realizar Fisioterapia como parte da reabilitação.

Lesão condral

O termo condral diz respeito à cartilagem, que reveste tanto a cabeça femoral quanto o acetábulo. É graças a ela que os movimentos dessa articulação ocorrem sem dor ou atrito.

Caso o paciente apresente uma queda ou trauma significativos na articulação do quadril, isso pode levar a um “machucado” na cartilagem, gerando um buraco nesse tecido e um possível corpo livre dentro da articulação.

Essa situação causa dor em graus variados ao paciente, podendo ser leve até limitante.

O diagnóstico é com a ressonância do quadril, único exame que visualiza cartilagem.

Imagem ilustrando a erosão condral que pode ocorrer tanto na cabeça do fêmur quanto no acetábulo e imagem de RNM apontando uma erosão condral.
Imagem ilustrando a erosão condral que pode ocorrer tanto na cabeça do fêmur quanto no acetábulo e imagem de RNM apontando uma erosão condral.

O tratamento pode ser com analgésicos e Fisioterapia ou infiltração com ácido hialurônico ou produtos biológicos.

Em último caso realizamos a cirurgia de artroscopia do quadril, para retirada de corpo livre e microfratura na área da erosão condral, para estimular o preenchimento da lesão com fibrocartilagem.

Imagens ilustrando a infiltração e artroscopia do quadril, possíveis tratamentos para a erosão condral.
Imagens ilustrando a infiltração e artroscopia do quadril, possíveis tratamentos para a erosão condral.

Fratura por estresse do colo do fêmur

Essa fratura ocorre por cargas repetitivas na região do colo do fêmur, secundária a treinos intensos de corrida, principalmente no caso de corredores de longa distância ou aumento abrupto na intensidade dos treinos.

É uma fratura por sobrecarga, ao contrário das fraturas agudas, que ocorrem por uma queda ou “pancada” importante no osso.

Esse processo acontece porque essa sobrecarga faz as células que reabsorvem osso trabalharem de maneira mais acentuada que as células que formam osso, levando a uma fragilidade nessa região.

Na fase inicial os pacientes relatam a dor ao final dos treinos de corrida. Conforme a doença vai progredindo, a dor vem no meio dos treinos, início dos treinos, até o momento que impede que o paciente consiga realizar qualquer corrida.

As pessoas mais afetadas são os corredores de longas distâncias e militares.

Um fator que pode predispor à ocorrência das fraturas de estresse é a presença da tríade da mulher atleta, composta por:

  • Irregularidades menstruais: isso demonstra baixos níveis de estrogênio, levando à fragilidade do osso
  • Baixa densidade óssea
  • Dieta restrita: dietas com aporte nutricional inadequado e baixa ingesta de cálcio, também podem levar à maior fraqueza óssea

A investigação é feita com a realização de RX e Ressonância Magnética do quadril afetado, mas na maioria das vezes, apenas a Ressonância identifica a fratura por estresse do colo do fêmur, que pode ser apenas um edema no colo do fêmur ou apresentar um traço de fratura visível.

Na primeira imagem há apenas edema ósseo, enquanto na segunda, além do edema, há um traço de fratura por estresse visível.
Na primeira imagem há apenas edema ósseo, enquanto na segunda, além do edema, há um traço de fratura por estresse visível.

Tratamentos indicados para fratura por estresse

Caso presente, o tratamento envolve a suspensão imediata dos treinos de corrida e utilização de muletas por algumas semanas, para permitir a cicatrização adequada da fratura.

O acompanhamento é feito com consultas e ressonâncias periódicas para avaliar a melhora da dor e a consolidação da fratura e redução do edema ósseo. No caso de boa evolução, o paciente pode voltar aos treinos alguns meses após apresentar a fratura, sempre de maneira gradual e sob supervisão adequada.

Alguns casos podem necessitar de tratamento com cirurgia, sendo eles:

  • Fraturas na zona de tensão do colo do fêmur (menos frequente)
  • Pacientes que não apresentam melhora da dor ou boa evolução da fratura nas ressonâncias subsequentes
  • Pacientes com incapacidade de levantar a perna
  • Fraturas completas ou desviadas

O cirurgião realiza a cirurgia com a colocação de parafusos ou de uma placa no fêmur, dependendo da gravidade do quadro.

Lesões musculares

As lesões ou estiramentos musculares mais frequentes no quadril e coxa envolvem os seguintes grupos musculares:

  • Adutores
  • Quadríceps, principalmente o reto femoral
  • Isquiotibiais, que é a musculatura posterior da coxa

Elas geralmente ocorrem após um movimento brusco/súbito, como um chute ou queda durante a prática esportiva.

A dor é geralmente imediata, fazendo com que o atleta não consiga retomar o esporte, e busque atendimento médico de maneira precoce. Ele pode apresentar inchaço e hematoma no local da lesão, além de ter dificuldade de andar e mobilizar o quadril nas primeiras semanas.

Além dos exames clínicos, a investigação envolve a realização de Ressonância Magnética, o melhor exame para visualizar lesões de partes moles.

Imagens de Ressonância apontando estiramentos dos isquiotibiais e adutores, respectivamente.
Imagens de Ressonância apontando estiramentos dos isquiotibiais e adutores, respectivamente.

Tratamos lesões musculares de maneira conservadora, ou seja, sem necessidade de cirurgia.

Repouso, gelo, anti-inflamatórios e Fisioterapia são os tratamentos convencionais nesses casos. O tempo de retorno ao esporte pode variar de 3 a 12 semanas, dependendo do grau da lesão.

Terapias mais modernas podem encurtar o tempo de recuperação, tais como terapia por ondas de choque, campo magnético e infiltrações com produtos biológicos, que aceleram a recuperação muscular.

Avulsões tendíneas

Os tendões são os tecidos que conectam os músculos aos ossos. São aquelas “cordinhas” que vemos e palpamos ao redor das nossas articulações.

Quando os músculos fazem a contração, eles movimentam os ossos graças aos tendões.

O mecanismo de lesão é o mesmo dos estiramentos musculares, movimentos bruscos em chutes ou quedas, mas ao invés de o músculo rasgar, o tendão é “arrancado” do osso.

Os tendões mais afetados são:

Adutores

É o mais frequentemente acometido, principalmente no futebol. O paciente sente uma dor súbita na região interna da virilha ao dar um chute ou cair com o membro inferior em abdução.

Pode ficar com um hematoma na região e tem dificuldade para realizar atividades básicas do dia a dia.

O diagnóstico é feito com e ressonância e o tratamento é conservador na maioria dos casos, similar ao tratamento das lesões musculares.

Apenas casos com avulsão completa e retração maior de 3cm devem ser tratam-se com cirurgia.

Isquiotibiais

A avulsão proximal dos isquiotibiais é frequente em quedas no esporte, principalmente com o quadril fletido e o joelho extendido. Uma dor súbita é sentida logo abaixo da nádega.

Assim como no caso dos adutores, o exame de escolha é a ressonância e o tratamento é conservador na maioria dos casos.

Apenas casos com avulsão de dois tendões ou mais e mais de 2cm de retração têm indicação cirúrgica.

Nessa cirurgia fazemos a reinserção dos tendões no ísquio, o osso que palpamos abaixo da nádega, com a utilização de âncoras, que são pequenos implantes inseridos no osso, com fios acoplados, que permitem a adequada sutura dos tendões.

Após a cirurgia, o paciente deve utilizar um imobilizador de quadril por algumas semanas, para evitar movimentos bruscos e permitir a adequada cicatrização dos tendões no osso.

Após esse período ele inicia o trabalho de fortalecimento e ganho de mobilidade, com o retorno aos esportes em 4 a 5 meses.

Reto femoral

O reto femoral é um dos quatro músculos do quadríceps, que além dele é composto pelos vasto lateral, intermédio e medial.

O reto femoral é o único dos quatro que cruza o quadril, tendo seu início na região superior ao acetábulo, enquanto os outros três se iniciam já no fêmur.

O tendão do reto femoral pode se avulsionar com um chute forte em jogos de futebol, fazendo com que o paciente sinta uma dor súbita na região da virilha.

Essas lesões são de tratamento conservador, uma vez que os outros músculos irão compensar alguma eventual fraqueza residual do reto femoral, sem prejudicar a força e função do quadríceps.

Após o período de repouso e Fisioterapia, o paciente volta gradualmente às suas atividades físicas, sem apresentar limitações.

O Dr. Felipe Spinelli Bessa é médico ortopedista, especialista em Cirurgia do Quadril, com as melhores especializações na área. É membro da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e da Sociedade Brasileira de Quadril (SBQ). Além disso, integra o Núcleo de Ortopedia Especializada, que reúne especialistas renomados em todas as áreas da ortopedia moderna.

Entre em contato com o Dr. Felipe Spinelli Bessa

 

 

Referências
Sociedade Brasileira de Quadril
OrthoInfo

Mayo Clinic

 

FAQ

Como saber se rompi músculo do quadril?

Rupturas músculo-tendíneas no quadril são frequentes durante a prática esportiva. Além dos sintomas de dor súbita, incapacidade de realização de atividades físicas e possível hematoma, o diagnóstico definitivo se dá com a realização de exames de imagem, principalmente a Ressonância Magnética.

O que pode ser dor na virilha quando corro?

Dor na região da virilha durante a corrida pode indicar uma lesão no quadril. As mais frequentes nessa situação são o impacto femoro-acetabular, lesão do lábio acetabular e fratura de estresse, pela sobrecarga mecânica da fratura. Uma investigação adequada deve ser realizada para o diagnóstico correto da lesão.

Como é a recuperação após lesão de adutor?

A lesão de adutor é frequente principalmente no futebol. Estiramentos musculares e avulsões tendíneas sem grandes retrações melhoram dentro de 6 a 8 semanas, período no qual o paciente deve se afastar do futebol e realizar Fisioterapia. Avulsões tendíneas com retração maior de 3cm pode necessitar de cirurgia.

 

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